terça-feira, 21 de janeiro de 2020

ESBOÇO ANTROPOLÓGICO PARA A EDUCAÇÃO DA RELIGIÃO


ESBOÇO ANTROPOLÓGICO PARA A EDUCAÇÃO DA RELIGIÃO




ALEXSANDRO ALVES DE ARAÚJO [1]

RESUMO


A preocupação básica deste estudo é conjecturar sobre a importância do tema religião, sendo que numa perspectiva antropológica. No contexto atual, de intolerância religiosa e de sua influência no contexto sociopolítico, o professor se torna uma peça chave e imprescindível para que que as tensões advindas do crescimento da intolerância religiosa não acabe afetando a curiosidade dos jovens sobre uma perspectiva mais abrangente sobre as religiões.[f1]  Este artigo tem como objetivo apresentar importância de uma abordagem mais ampla da religião como conceito inerente a humanidade e  a sua trajetória até a religiosidade e uma possível influência do saber religioso na ciência. Realizou-se uma pesquisa bibliográfica considerando as contribuições de autores como, (ELIADE, 2008);  (KEESING, 2014);  (SAGAN, 2006) entre outros[f2] , procurando enfatizar a importância do aprendizado da religião desde a forma mais primitiva, passando pela idade média, até a idade contemporânea delimitando na perspectiva dos autores citados. Concluiu-se a importância de o professor levar o caráter da sua licenciatura como um profissional da educação e estar preparado como pesquisador para procurar apresentar conceitos interdisciplinares que possam trazer a luz do conhecimento do aluno a quebra de conceitos e paradigmas religiosos e a reconstrução de novos conceitos sobre a religião[f3] .

Palavras-chave: Educação. Antropologia. Religião.

Introdução

O presente trabalho pretende situar a importância da Antropologia e de desconstruir o senso comum, criando um senso crítico diante dos fatos do cotidiano analisando na história aspectos políticos, culturais, econômicos e religiosos e criar uma janela entre o presente e o passado para que haja um entendimento, do que é, e de como funciona a sociedade e a cultura relacionados a religiosidade e a fé e como tudo isso influencia na vida das pessoas. Um dos obstáculos a serem enfrentados será o de utilizar os métodos teóricos e conceitos, didáticos e pedagógicos adequados que não sejam só o de memorização e repetição.
Historicamente sabemos que o modelo jesuítico, presente desde o início da colonização portuguesa no Brasil, já apresentava em seu manual, Ratio Studiorum - datado de 1599[2], os três passos básicos de uma aula: preleção do conteúdo pelo professor, levantamento de dúvidas dos alunos e exercícios para fixação, cabendo ao aluno a memorização para a prova.  (ANASTASIOU & ALVES, 2015. Pg, 01).
Durante muito tempo o estilo de ensino dos jesuítas foi o mais utilizado nas escolas, com o seu método de exposição, memorização² e avaliação do conteúdo, dado, o que parecia atender as necessidades do ensino, contudo, ensinar não é uma coisa só de memorização existe uma infinidade de recursos que o professor pode utilizar para reforçar o entendimento e tornar a aula mais didática.
O desafio aqui se coloca sobre a questão de entrar em um território do imaginário comum e tratar do tema religião sem que seja com a perspectiva de religiosidade e resgatar um senso crítico com base nas questões da religião de uma forma geral, de modo que o aluno não só consiga decorar para realizar um prova qualquer, e sim, traga para a sua vida pessoal. Se faz necessário fazer um levantamento sob a perspectiva da antropologia, da história e da ciência para que o aluno possa entender a evolução dos conceitos e aplica-los  quando for necessário no dia a dia.
Nesta perspectiva, constituiu-se o que deu origem a produção do presente trabalho: O fato de que, atualmente, a intolerância, o fundamentalismo e proselitismo religioso não só tem sido fortemente influenciador do contexto sociopolítico, como também tem sido um dos quesitos “determinantes” de embates por causa do conservadorismo religioso. O desafio é trazer de volta o ensino da religião para a sala de aula sem o viés religioso.
Baseados em tais pressupostos, como poderemos apresentar a religião sob uma perspectiva que possa criar um senso crítico que atenue a intolerância e os embates de viés religioso?
Vários autores conceituam a religião como uma coisa que influencia diretamente nas ações dos indivíduos, todavia, neste contexto, o objetivo primordial deste estudo apresentar para os alunos uma perspectiva diferente do conceito como foi aprendido o tema religião, como forma de desconstruir e construir o conhecimento necessário para que possa se diminuir os conflitos de caráter religioso na sociedade e garantir a liberdade religiosa. Parece ser contraditório ensinar religião sem um viés religioso para se garantir a liberdade religiosa, mas quando as pessoas se desprendem dos conceitos de sua religiosidade tendem a respeitar mais religião dos outros. Para alcançar os objetivos propostos, utilizou-se como recurso metodológico, a pesquisa bibliográfica, realizada a partir da análise de materiais já publicados na literatura e artigos científicos divulgados no meio eletrônico.
O trabalho foi fundamentado nas ideias e concepções de autores como:  ELIADE, M. (2008); SAGAN, C. (2006); ROHDEN, C. S. (1998); DARWIN, C. (2008); KEESING, R. M. (2014); MOREIRA, A. (2008).

Desenvolvimento

Podemos pressupor que as convicções religiosas, muitas vezes, levam as pessoas a cometerem injustiças, levando em consideração que os dogmas de suas convicções, crenças, mitos e ritos ou até mesmo de sua incredulidade e agnosticismo são considerados fundamentados, exclusivos, verdadeiros e inquestionáveis.
Há um risco considerável de ofendermos as pessoas, mesmo sem termos a intenção, simplesmente por não concordamos com a perspectiva do outro em relação a sua fé ou a falta dela, consequentemente isso caracteriza um insulto. Todavia, as religiões não são pautadas em algo concreto. Em muitos casos, não aceitar a religião ou agnosticismo do outro pode-se evoluir até uma agressão física de fato. Uma das dificuldades de se estudar a religião é que mesmo que tivéssemos uma vida inteira para analisarmos não seria tempo suficiente. Podemos começar pelo básico, as hierofanias.
As crenças nas hierofanias (manifestação do sagrado), estão relacionadas ao animismo, “uma forma que o homem tem de relacionar funções especificamente humanas as coisas inanimadas”, delas, acredita-se que sai uma energia/força/poder que se chama de “mana”. Isso em determinados momentos fez com que muitos grupos de indivíduos manifestassem a suas crenças em deuses relacionados aos seus modos de vida aos fenômenos da natureza como o trovão, o vento, arvores, cosmos ou a plantação, pesca etc.
Por exemplo, as hierofanias vegetais (isto é, o sagrado revelado através da vegetação) encontra-se tanto nos símbolos (a arvore cósmica) ou nos mitos metafísicos (a arvore da vida) como nos ritos ”populares” (o “cortejo da arvore de maio”, a queima das achas, fogueiras de São João, os ritos agrários), nas crenças ligadas à ideia de uma origem vegetal da humanidade, nas relações místicas existentes entre certas arvores e certos indivíduos ou sociedades humanas, nas superstições relativas a fecundação pelos frutos ou pelas flores, pós de Maio, nos contos em que o herói, covardemente assassinado, se transforma numa planta, nos mitos e nos ritos das divindades da vegetação e da agricultura, etc.  (ELIADE, 2008; Pg. 31)
Esse pensamento em algo divino leva a espécie humana de uma conduta instintiva a uma conduta moral. A permanência nos grupos passou a exigir uma conduta moral baseada nos costumes, mitos e crenças das sociedades as quais pertenciam o indivíduo. Segundo Norbeck, “as cerimônias, os rituais e as religiões são baseados no sistema social, os quais estão integrados os agentes sociais”.
Em um estudo clássico, o sociólogo francês Robert Hertz interpretou os rituais de mortuário relatados de Bornéu como um rito de passagem simbólico. Em um primeiro funeral, a pessoa morta foi enterrada e parentes sobreviventes iam para um isolamento ritual, longe de qualquer contato social. A seguir o crânio purificado era exumado e outro enterro era realizado que enviava o espirito para a vida depois da morte e libertava os enlutados para que voltasse a vida social normal. Hertz interpreta isso como um tratamento de morte, como um rito de passagem para um novo status. O mundo depois da morte é inventado para evitar tratar a morte como um final: o segundo enterro reincorpora os vivos em seu mundo e envia o espirito para o novo mundo.  (KEESING, 2014; Pg. 356) apud (cf. BLOCH, 1972; HUNTINGTON & METCALF, 1979; METCALF, 1977).
A crença em um mundo espiritual atenua o medo da morte, acreditava-se existir uma possibilidade de após a morte o indivíduo se comunicar com as pessoas que ficaram e os espíritos poderiam influenciar na caça, na guerra etc.
A partir desse ponto de vista a religião é entendida como um fenômeno social. Essa visão é reforçada na busca de Durkheim pela religião mais primitiva, o totemismo, na qual encontra o mana totêmico simbolizando o sagrado e o clã ao mesmo tempo. Recordemos que, para Durkheim, o totem simbolizava uma força religiosa coletiva e impessoal denominada mana, que já havia sido descrita por Condrington em suas pesquisas sobre os Melanésios. (RIES, 1985, p. 17-18) apud  (ROHDEN, 1998. Pg. 29).
Todavia, a fé nos sacerdote se torna uma coisa indispensável, pois o mesmo é um intermediário entre os dois mundos (espiritual e o físico), e isto de certa forma diminui a preocupação com a morte. O feiticeiro/sacerdote, o Xamã, o padre, o pastor, o “pai de santo” é um intermediário entre os dois mundos, é o indivíduo que está adequadamente preparado para manusear, os objetos ou palavras, com as quais o mana está relacionado, sem profanar o sagrado. É o intermediário entre as pessoas comuns e o mundo sobrenatural. 
Segundo Durkheim, o totem não é mais que uma representação material dessa força impessoal e difusa. Essa força, o mana, é considerada, por Durkheim, o sagrado por excelência. Para ele essa força nada mais era do que uma força coletiva com sua origem na sociedade, que é transferida para a realidade como um elemento essencial na organização social. A esse respeito J. Ries explica que a sociedade desperta a sensação do divino, justamente por ser considerada como um deus, para os seus membros. Através de uma operação de transferência de força, que ocorre durante as festas, o sagrado é criado. Portanto, o sagrado é uma criação da sociedade, transferido em seguida para o totem. (RIES, 1985, p. 17-18) apud  (ROHDEN, 1998. Pg. 29).
Possivelmente as pessoas, dependendo de sua religião, tendem a ver certas situações com um olhar maniqueísta, sempre relacionando os casos do cotidiano a algumas manifestações do sagrado. Para o Xamã, o feiticeiro, o pajé e para algumas religiões de matriz africana um mesmo espirito ou divindade pode fazer tanto o bem quanto o mal, diferente das religiões cristãs que acreditam em duas divindades, uma que faz o mal e outra q faz o bem.
“Demônios, herança da Idade Média”. De acordo com a Bíblia Sagrada, Deus permitiu aos homens um livre-arbítrio, direito de escolha entre o bem e o mal. De certa forma, isto responde a quem perguntar sobre o motivo de tanta maldade na terra, pois, se existe maldade, é por total responsabilidade da queda dos anjos decaídos. Todavia, existem demônios que estão todos os dias a atormentar a humanidade e, a Eles são atribuídas toda a origem do mal; a idéia de demônios foi alterada pela de “Diabo” por santo Agostinho na idade média, dando a idéia de seres totalmente malignos, antes os demoníacos eram reconhecidos como uma coisa superior ao homem, sinônimo de sabedoria:
No livro VIII de A cidade de Deus (iniciado em 413), Agostinho assimila essa antiga tradição, substitui os deuses por Deus, e converte os demônios em Diabo – afirmando que eles são, sem exceção, malignos. Não tem virtude redentoras. São a fonte de todo o mal espiritual.  (SAGAN, 2006. Pg. 140).
De acordo com Platão, os demônios são detentores de uma inteligência sobre-humana e possuem um papel elevado entre os homens e nem todos eram maus.
A crença nos demônios era difundida no mundo antigo. Eram considerados seres naturais, e não sobrenaturais. Hesíodo os menciona de passagem. Sócrates descrevia sua inspiração filosófica como a obra de um demônio pessoal e benigno. Sua professora, Diotima da Mantineia, diz-lhe (no banquete de Platão) que “tudo o que é demoníaco (gênio) é intermediário entre Deus e os mortais. Deus não tem contato com os homens — continua — só por meio do demoníaco é que existe relações e diálogos entre os homens e os deuses, quer em estado desperto, quer durante o sono. Platão, o discípulo mais famoso de Sócrates, atribuía um papel elevado aos demônios: “Nenhuma natureza humana investida com o poder supremo é capaz de ordenar os assuntos humanos — disse — e não transbordar de insolência e iniquidade...”  (SAGAN, 2006; Pg. 138).
Percebemos nesses trechos o fascínio dos homens pelas coisas do imaginário comum, as coisas espirituais, as quais estão fortemente ligadas à humanidade desde o começo dos tempos através da religião, atribuiu signos e significados as coisas que ela não conseguia explicar. “E o que os demônios também eram capazes de fazer?”.
No Malleus, Kramer e Sprenger revelam que “os diabos [...] procuram interferir no processo da copula e concepção normal, obtendo semém humano e transferindo-o eles próprios”. A inseminação artificial demoníaca na Idade Média remonta pelo menos a São Tomás de Aquino, que nos diz em Sobre a Trindade que “os demônios podem transferir o semém que coletaram e injeta-los nos corpos de outros”.  (SAGAN, 2006, Pg. 149)
Existia uma crença de que os demônios desciam do céu e se relacionavam sexualmente com os humanos e que do fruto desse relacionamento nasciam às bruxas, e esse fato foi o motivo de muitas mortes causadas pela inquisição na idade média. As terras e os bens da suposta bruxa eram confiscado pelo estado/igreja; ela, “a bruxa” não tinha o direito de justificar sua inocência e consequentemente era queimada na fogueira. Quem ousar-se interferir seria queimado junto com ela. O interessante nessa história é que mal se ver ou pouco se fala em possíveis bruxos ou caça aos bruxos. Refletindo uma dominação machista a qual sempre dava proteção aos homens.
Em 1645, uma adolescente da Cornualha, Anne Jefferies, foi encontrada grogue, encolhida no chão. Muito mais tarde, ela lembrou ter sido atacada por meia dúzia de homenzinhos, conduzida paralisada a um castelo nos ar, seduzida, e trazida de volta para casa. Ela chamava os homenzinhos de duendes. (Para muitos cristãos piedosos, como para os inquisidores de Joana d’Arc, essa distinção era irrelevante. Os duendes eram demônios, pura e simplesmente.) Eles voltaram para aterrorizá-la e atormenta-la. No ano seguinte ela foi presa por bruxaria.  (SAGAN, 2006; Pg. 150)
A crença em duendes, anjos, espíritos, bruxas, demônios fazem parte do imaginário comum, no entanto, ao longo dos tempos, podemos ver que a ciência vai evoluindo e cada vez mais refutando algumas teorias.
A ciência não usa mais a definição da bíblica para explicar os fenômenos. Deus, Demônios, “a criação” e divindades teriam sido refutadas pela ciência; segundo a ciência, a existência de tais fatos está no imaginário comum das pessoas, como dito antes, o que diminui o medo da morte e dá esperança aos homens de suportar as dificuldades.
Incerta e imaginária, ela reveste-se de um cunho religioso sob a forma de crenças que procuram atenuar o temor do fim da vida. Diminuindo a ansiedade e as suas dúvidas, a reflexão e o pensamento da Morte poderão ser o caminho que integre o homem no Universo de que ele faz parte e o conduza à descoberta de uma verdade procurada.  (GUERREIRO, 2008; Pg. 171).
No entanto, a ciência não é uma verdade inquestionável, pois, um dos pontos que podem ser observados é que a ciência é feita de acerto e erro. Entretanto, certos mitos vão se adaptando, e as idéias de coisas espirituais vão dando a lugar aos UFOS, ou alienígenas; seres extraterrestres. Podemos imaginar que as pessoas da antiguidade não tinham referência tecnológica do que seria um disco voador nem espaçonave ou coisas do tipo, e talvez não pudessem descrever como hoje como nós imaginamos ser os alienígenas.
Segundo (ELIADE, 2008), [...] É sempre numa certa situação histórica que o sagrado se manifesta, até as experiências místicas mais pessoais transcendentes sofrem a influência do momento histórico.
A manifestação do sagrado, desde a mais elementar até a mais complexa, como a encarnação de Deus em Jesus Cristo, ocorre sempre num contexto histórico, social e cultural determinado. Segundo Eliade, a mais universal experiência mística, ao se manifestar, se singulariza. Quando Deus se encarnou em Cristo, teve que falar o aramaico, agir como um hebreu: a sua mensagem, por mais universal que fosse, estava condicionada pela história do povo hebreu.  (ROHDEN, 1998; Pg. 22).
Nesse contexto, acredita-se que a ideia mística de espíritos e demônios possa vir a dar lugar ou ser condicionada a uma ideia que se apoie na ciência, os ALIENS serão parte do imaginário comum da atualidade, e todo aparecimento antigo de deuses espíritos e Demônios serão justificados por um antepassado extraterrestre o qual ajudou a humanidade desde o começo dos tempos.
Seguindo essa linha de argumentação, poderíamos prever que os adeptos atuais das crenças antigas passassem a compreender os “alienígenas” como duendes, deuses ou demônios. Na verdade, várias seitas contemporâneas – os “raelianos”, por exemplo - sustentam que os deuses ou Deus vieram à Terra em UFOS. Algumas vítimas de rapto descrevem os alienígenas, por mais repulsivos que sejam, como “anjos” ou “emissários de Deus”. E há os que ainda acham que se trata de demônios.  (SAGAN, 2006; Pg. 154).
Os fatos tendem a explanar ou conduzir para esse caminho: o qual, as crenças são produtos da vida social a que a reflete; como podemos ver no presente contexto, os deuses estão geralmente relacionados ao modo de vida das sociedades; o homem em geral, não tem como imaginar como ou qual seria a vontade de Deus, se não, segundo o que ele entende por verdade, pela sua cultura, pela sua política e as suas crenças. Contudo, a ciência dizendo que “Deus está morto”, não corre o risco dela mesma se tornar a nova religião do mundo? Não se sabe, apesar disso, ainda hoje, embora todo o avanço científico, o fenômeno religioso sobrevive e cresce, desafiando previsões que anteviam seu fim. A religião é uma coisa que está fortemente ligada à cultura das sociedades, nas quais estão inseridas, e “coincidentemente” sempre relacionadas a alguns mitos e símbolos. 
As tradições religiosas são com frequência tão ricas e variadas que oferecem uma ampla oportunidade de renovação e revisão, sobretudo, mais uma vez, quando os livros sagrados podem ser interpretados metafórica e alegoricamente tendendo a uma hermenêutica de acordo com a interpretação de cada religião, não se pode ter uma resposta consistente das coisas, da vida e da criação do mundo. Daí, pode-se justificar inquisições, escravidão, ascetismos dos fiéis e enriquecimento dos pastores neopentecostais etc.
E, na história da humanidade, não há registro em qualquer estudo por parte da História, Antropologia, Sociologia ou qualquer outra ciência social, de um agrupamento humano em qualquer época que não tenha professado algum tipo de crença religiosa. As religiões são, então, um fenômeno inerente à cultura humana, assim como as artes e técnicas. As religiões são então um fenômeno inerente a cultura humana, assim como as artes e técnicas.  [..] Grande parte de todos os movimentos humanos significativos tiveram a religião como impulsor, diversas guerras, geralmente as mais terríveis, tiveram legitimação religiosa, estruturas sociais foram definidas com base em religiões e grande parte do conhecimento científico, filosófico e artístico tiveram como vetores os grupos religiosos, que durante a maior parte da história da humanidade estiveram vinculados ao poder político e social. (MOREIRA, 2008; Pg. 249).
O homem em geral, não tem como imaginar como ou qual seria a vontade de um deus, se não, segundo o que ele entende por verdade, pela sua cultura, pela sua política e as suas crenças. Deuses foram criados para explicar fenômenos naturais e coisas que o homem não conseguia explicar. No Egito existiam deuses antropozoomorficos, metade animal, metade humana, e a cada um era determinado certo poder. Rá era o deus sol, a estrela da manhã que trazia calor e mantinha a vida no planeta.  O antropomorfismo dos gregos foi adotado também pelo cristianismo, os deuses teriam semelhança com a imagem humana, e estariam sujeitos aos mesmos desejos e paixões. Geralmente os deuses têm semelhança humana, os quais no cristianismo, candomblé, hinduísmo, budismo, islamismo etc. todos são sujeitos aos mesmos desejos e paixões que os homens. Os deuses podem sentir: íra, ciúmes, inveja, amor, compaixão etc. todos os sentimentos relacionados ao ser humano. Outro detalhe é que o Deus europeu é branco, e não negro nem indígena, ou seja, cada sociedade vai criar um Deus a sua imagem e semelhança. Como disse Xenofanes: se um cavalo pudesse pintar como seria o seu Deus, o pintaria em forma de cavalo e Nietzsche: o Deus é a imagem e semelhança do homem, contradizendo a bíblia, a qual diz que Deus criou o homem a sua imagem e semelhança.
Xenofanes escreveu em versos sua oposição às ideias de Tales, Anaximandro e Anaxímenes. Chegaram até nós diversos de seus versos e de suas idéias filosóficas. Delas podemos destacar seu combate ao antropomorfismo (atribuir aos deuses formas e sentimentos humanos) que ele expressa especialmente contra os poemas de Homero e Hesíodo. Ele dizia que se os animais tivessem o dom da pintura eles iriam pintar seus deuses com formas animais. "Homero e Hesíodo atribuíram aos deuses tudo aquilo que para os homens é objeto de vergonha e baixeza: roubar, praticar adultério e enganar-se...  os mortais consideram que os deuses nasceram, e que possuem roupas, vozes e corpos como os seus...  os Etíopes acreditam que seus deuses possuem narizes achatados e que são negros; e os Trácios que os seus deuses possuem olhos azuis e cabelo vermelho... mas se os bois, cavalos e leões tivessem mãos e soubessem desenhar... os cavalos desenhariam figuras de deuses semelhantes a cavalos, os bois semelhantes a bois." Ele queria com isso mostrar que o verdadeiro deus é único, absoluto e tem pouca semelhança com os homens, com seus pensamentos ou com as diversas representações feitas dele. (XENÓFANES, 570 - 475 a.C.).
Não cabe ao antropólogo a valoração de costumes e crenças das religiões, o certo é que a religião faz parte da cultura dos povos e como parte integrante da cultura sofre as variações dos diversos locais, como também influência nos seus costumes.

Conclusão

O dom do ensino não é uma coisa determinada nem predestinada por uma divindade, quem quiser ser professor deve levar em consideração que a sua tarefa exige preparo e dedicação, como qualquer outra profissão. Existem métodos e didáticas que podem ser aprendidos pelos professores que servem para qualificar e preparar ainda mais o docente para o ensino em sala de aula. O professor de antropologia também tem que ser um bom pesquisador e a sua busca por conhecimento deve ser uma coisa continua, todavia, o ensino é uma coisa paulatina, e a vantagem é a de que: quem ensina também aprende, sem falar que a questão do ensino da religião tem se tornado cada vez mais uma coisa fundamental para se diminuir a intolerância e o fundamentalismo religioso. Como dito antes, o professor também aprende ensinando, o saber docente só, não é suficiente para o desenvolvimento da sua profissão, a questão da gestão e do ensino envolve a necessidade de se obter um conhecimento interdisciplinar e uma experiência de sala de aula, que é adquirida com o tempo.
O professor, devido a sua experiência de vivencia de sala de aula e métodos já utilizados antes, deve ter utilizados métodos que deram certo e outros errados e a sua experiência adquirida durante o tempo de vivencia proporcionará uma melhor decisão ou escolha de métodos de acordo com o andamento da aula no presente e futuro. Explorando a sua capacidade didática, o professor de antropologia tem o papel de se tornar o principal meio pelo qual a religião pode ser apresentada sem o predominante viés religioso de forma que os consequentes efeitos de separação, preconceitos, embates religiosos e o principal, a intolerância possam tender a ter um fim. Podemos entender sobre os conceitos básicos da interferência da religião no mecanismo da ação humana durante o princípio primitivo da humanidade até um contexto atual e cientifico.
É importante que o aluno entenda determinados conceitos para perceber que a religião necessita de um esforço de relativização e alteridade para que se possa haver um melhor entendimento do contexto religioso das ações e manifestações do sagrado em torno do mundo e ao seu redor.

REFERENCIAS


ANASTASIOU, L. d., & ALVES, L. P. (2015). Processo de ensinagem na universidade: pressupostos para as estrategias de trabalho em aula. Joinville, SC: Editora Univille.

DARWIN, C. (2008). A origem das Espécies. (A. C. MESQUITA, Trad.) São Paulo: Editora Escala.

ELIADE, M. (2008). Tratado de História das Religiões. (N. N. FERNANDOTOMAZ, Trad.) São Pailo: Martins Fontes.

KEESING, R. M. (2014). Antropologia Cultural: uma perspectiva contemporânea. Petropolis: VOZES.

MOREIRA, A. (03 de Janeiro de 2008). A religião como Fenomeno Propulsor da Ecocultura. São Leopoldo, RS, Brasil. Fonte: http://www.anais.est.edu.br/index.php/congresso/article/viewFile/5/20.

ROHDEN, C. S. (1998). A Camuflagem do Sagrado e o mundo moderno à luz do pensamento de Mircea Eliade. Porto ALegre: EDIPUCRS.

SAGAN, C. (2006). O mundo assombrado pelos demonios: A ciencia vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras.

XENÓFANES (570 - 475 a.C.). em Só Filosofia. Virtuous Tecnologia da Informação, 2008-2020. Consultado em 03/01/2020 às 16:32. Disponível na Internet em http://www.filosofia.com.br/historia_show.php?id=14.




[1] Alexsandro Alves de Araújo: Formado em Ciências Sociais (Licenciatura) pela universidade Federal de Pernambuco - UFPE; Tecnólogo em Processos Gerenciais pela Universidade Brasileira – UNIBRA; Técnico em Logística pela Escola Técnica Estadual Maximiano Accioly Campos – ETEMAC. RECIFE – PE. 2020.
2- Para um maior aprofundamento acerca do modelo jesuítico de ensino e sua influência atual, da Ratio Studiorum e dos passos previstos na ação docente e discente vide ANASTASIOU, L. G. C. in Metodologia do Ensino Superior: da prática docente a uma possível teoria pedagógica, Editora IBPEX, Curitiba, 1998. 

3- [...] O processo de apreensão, de conhecer, tem a ver com o enredar, estabelecendo os nós necessários entre os fios a serem tecidos... Para dar conta desse "enredamento", há que se superar as dificuldades superando a simples memorização.  (ANASTASIOU & ALVES, 2015. Pg, 05)


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